terça-feira, 6 de março de 2018

Uma breve análise sobre a Atenção

Neste Universo espaço é liberdade e tempo, prisão: é possível deslocar-se no tempo, estando imóvel no espaço. Deslocar-se no espaço permanecendo imóvel no tempo, no entanto, é uma impossibilidade: o tempo sempre mantém sua marcha incessante. O espaço, vasto e ilimitado do ponto de vista do indivíduo em condição humana, em nada assemelha-se à limitação crescente imposta ao tempo de que usufruiu.

Dentre as muitas realidades que podem ser diretamente análogas ao tempo, seja por terem sua natureza diretamente dependente deste ou porque sem ele não podem completar inteiramente o seu propósito, a mais humana é aquela a que chamamos "atenção". Não porque apenas a mente humana seja capaz de exercitá-la, mas sim pelo fato de que apenas esta mostra-se capaz de produzi-la de forma endógena, orientando-a através da memória, para criar representações do mundo externo sobre as quais ela mesma trabalha e no qual enraíza sua existência. [1]

A princípio esta capacidade parece não relacionar-se diretamente à liberdade do indivíduo ou mesmo ao tempo. Esta ponderação é compreensível, uma vez que podemos propor a hipótese da mente como uma entidade preternatural cujos processos por vezes prescindem o tempo e o espaço. Consideremos, no entanto, que o estar humano (longe de ser divino), é de realidade inacabada, instável, fluida e assim é o seu pensamento que, se adotarmos a posição de Parmênides posteriormente retomada por René Descartes, equivale a sua própria existência.

Se o pensamento significa o humano e este é inacabado, instável e fluído, também deve sê-lo o pensamento e suas obras. Assim sendo, o exercício do pensamento, uma amarra inquebrável de nossa condição, só pode ser realizado dentro da prisão do tempo pois importa dele sua marcha e sua rigidez. Aquilo que anteriormente nomeamos atenção podemos agora definir como um exercício mental (consciente ou não) de tomar posse, de forma clara e vívida, de um ou mais objetos observados ou linhas de pensamento. [2]

Ora, se a atenção é o exercício através do qual a mente toma posse daquilo que observa, é somente através desta prática que pode compreender o que a cerca. É preciso praticar a atenção para que nestes objetos apreendidos possam trabalhar a razão e a intuição, no sentido de construir uma imagem interna do observado, seja ele externo ou interno.

Não diferenciam-se os observados interiores e exteriores em sua relação com o tempo. uma vez que a natureza agressiva do tempo que passa (e nunca volta), que implica a instabilidade e mutabilidade de todas as coisas e, por sua vez, a impossibilidade de que o significado apreendido das coisas corresponda as coisas mesmas (pois quando compreende, o compreendido já mudou), obriga-nos a um exercício constante e ininterrupto da atenção para ambos.

A atenção seria, pois, a forma de foco de nossas energias interiores através das quais o exercício do pensamento e do ser tornam-se possíveis. Ela é exercida no tempo e no espaço e relaciona-se com ambos, com o tempo por meio dos mecanismos acima apresentados e com o espaço por ser daí que tira os objetos sobre os quais se debruça o pensamento e, por consequência, é por meio dela que o altera.

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Referências

  1. PROCTOR, Robert W.; JOHNSON, Addie. Attention: Theory and practice. Thousand Oaks: Sage, 2004. 474 p.
  2. JAMES, William. The Principles of Psychology. New York: Holt, 1890. 1393 p. 53 v. Disponível em: <https://archive.org/details/theprinciplesofp01jameuoft>. Acesso em: 08 mar. 2018.

sábado, 2 de julho de 2016

Apologética do Futuro – 'porque tive fome e me destes de comer…'

Sabe seu Manoel, lá pelos idos dos anos 2016 eu ainda tinha alguma esperança de que as coisas iriam melhorar. Eram tempos difíceis, o senhor bem se lembra… Eu, que nessas alturas ainda era um jovem estudante, achava que a tecnologia seria a grande graça dada por Deus para vivermos bem nesse mundo. Olha só, que tristeza: acreditando nas obras dos homens. O senhor sabe que eu cheguei a militar nessas causas? Acreditava piamente que a fome acabaria, que as doenças deixariam de existir. O fato é, cá estamos no ano 2100 e as coisas só pioraram. Aliás, melhoraram só para os abastados…

Mas no meio de tudo isso, fiquei tão feliz, seu Manoel, quando ontem pela manhãzinha… Oras seu Manoel, sente-se logo nessa cadeira que aqui a casa nem minha é: é do Senhor Jesus! Pois então se sente aí e sirva um pouco de chá pra nós dois que vou lhe contar o que houve. Aprumou-se? Pois bem, escute só.

Ontem pela manhã, quando o carteiro passou por aqui me gritando, deixou uma carta de Dom Antônio, padre muito amigo meu que anda lá pelo que restou do Brasil fazendo missão. Sentei ali no sofá e comecei a ler a carta. Lia, lia, relia e não conseguia conter as lágrimas. Dizia ele que já não havia muito pelo que rezar naquele lugar: nem povo, nem chuvas, nem colheita, nada. Havia tornando-se pároco de uma pequena igreja isolada no meio do nada, como quase todas as outras que lá ainda existem.

Parecia amá-la tanto, veja como a descreve:

"Uma igrejola de uns 5 metros de altura (a maior parte deles devido à sua torrezinha com um sino), que havia de ser branca antes da ventania de areia deixar-lhe apenas o cimento nas paredes. Sem janelas e com apenas uma porta de madeira que se nega a deixar-se comer pelo tempo. Ainda azul por dentro, no presbitério elevado por um único degrau de mármore branco, há apenas um altar unido à parede com um sacrário no meio. O altar ainda conserva, logo acima do sacrário de bronze já desgastado (onde figura um cordeirinho imolado, encimado por uma bela cruz), uma imagem em estilo barroco de Nossa Senhora das Graças (mas que parece ser uma impressão 3D em plástico). Seus quatro bancos de madeira, separados em duas filas, ainda mantém seus genuflexórios intactos."

Sei que não pôde demorar muito falando dela como queria, disse-me que havia pouco papel e pouca tinta, e que desejava relatar algo que acontecera com ele poucos dias antes de escrever a carta. Explicou-me que naquela região os bancos da Igreja, que já não são muitos, nunca viam mais do que uma ou duas pessoas nas missas dominicais. Por vezes não podia distribuir a comunhão porque – que dificuldade! – celebrava com apenas umas gotas de vinho velho e um pequeno pedaço de pão.

Contou então um caso, ah que caso! Levou-me as lágrimas seu Manoel, o que falou logo em seguida. Estava ele sentado em um dos bancos da igreja cantando a Meridiana, lá fora o sol castigava tanto que o pouco vento que entrava pela porta lhe cozinhava os miolos. A boca rachada de sede, pois a única ajuda (que vinha da Igreja), havia se tornado tão parca que passados dias não comia ou bebia. Parecia-lhe, dizia ele, que agora a Igreja se preocupava mais com os sãos e os descarados (palavras dele!) do que com os doentes e arrependidos.

Mesmo com a sede e a fome estava lá, fiel ao ministério de orar pelo povo e pelo mundo. Enquanto revisitava a monotonia cotidiana de sua salmódia ouviu pequenas batidas na porta: estaria delirando pela fome e pela sede? Olhando para trás viu uma figura esguia, tão raquítica e ossuda quanto a própria morte, estendendo-lhe a mão e lhe dizendo com a voz tão trêmula quanto a visão do horizonte naquele inferno:

– Posso entrar, senhor?

Respondeu-lhe prontamente que a casa era de Deus e, por tanto, ali eram bem vindos todos os seus filhos. A figura entrou, repousou o que lhe restava de corpo em um dos bancos e começou a chorar. Ao aproximar-se, Dom Antônio cobriu-lhe com um lençol roto e perguntou-lhe de onde vinha (e para onde ia), ao que ouviu um soleníssimo:

– Não sei…

Perguntou então se tinha fome e sede, o que havia de ser óbvio para qualquer um apenas ao ver aquela figura. Recebeu como resposta um singelo balançar de cabeça. Como não havia de alimentar e saciar a sede daquela criatura de Deus? Mas nada tinha, ele mesmo, para comer. Estava à espera – interminável – da pouca ração que havia de vir de Roma como ajuda da Igreja, mas olhava para aquele irmão e já sentia dores de compaixão. Eis que se recordou que havia ainda, no Sacrário, algumas poucas partículas consagradas na última Missa.

Questionou àquele ser se era batizado. A negativa lhe fez tremer por inteiro. Enquanto permanecia de pé, embasbacado, o Espírito Santo veio em seu auxílio e o seu irmão disse em voz baixa:

– Senhor, se tem alguém que te faça tão bom que o senhor se preocupe comigo mesmo sem ter o que comer também, me deixa falar com ele?

Quando li isso, seu Manoel, despenquei em lágrimas. Tá aqui ó, o papel todo manchado. Engraçado que meu irmão diz ter chorado na mesma hora… Até que, segurando as lágrimas, perguntou àquela figura se queria mesmo conhecer a Jesus e servi-lo e se estava arrependido de todo e qualquer mal que tivesse feito em sua vida. Tendo recebido um breve balançar de cabeça como resposta, pois-se a batizá-lo. Percebeu tardiamente que não tinha água com que batizar, então, ao longo do rito, onde havia de banhar-lhe a cabeça, fez uma pequena prece em silêncio, molhou os dedos nas gotas de água que restavam em seu cantil, e marcou-lhe a fronte em forma de cruz.

Dom Antônio então leu para José, de sua bíblia já muito gasta, a liturgia do dia:

"Então o Rei dirá aos que estão à direita: – Vinde, benditos de meu Pai, tomai posse do Reino que vos está preparado desde a criação do mundo, porque tive fome e me destes de comer; tive sede e me destes de beber; era peregrino e me acolhestes; nu e me vestistes; enfermo e me visitastes; estava na prisão e viestes a mim."
São Mateus 25, 34-36

Viu um brilho tão intenso nos olhos de José, que a cada minuto se admirava mais com a beleza daquele Deus imenso, que havia chegado faminto, sedento, desterrado, despido, doente, preso à carne; assim como ele que agora estava ali na frente do meu amado irmão, que após uma longa vênia abria o tabernáculo onde habitava aquele amor tão grande. José, instintivamente ajoelhou-se e rezou. Dom Antônio, enquanto preparava no Altar o repouso do pequeno cibório, explicava os eventos da Santa Ceia e da Paixão de Cristo, para aquele que seria até o fim de sua vida, seu ouvinte mais atento.

Ao fim, contou as partículas no cibório: sete. Pensou se havia ele mesmo de alimentar-se também do pão dos anjos, mas viu que a pouca quantidade mal alimentaria seu pobre irmão. José gastou algum tempo admirando aquilo que parecia apenas pão, mas era Corpo e Sangue. Dom Antônio deu-lhe quanto tempo foi necessário para adorar aquele Deus tremendo… José então abriu-lhe a boca ao que meu amado irmão lhe disse:

– Corpus Christi.

José, como ensinado, respondeu-lhe firmemente:

– Amém.

E alimentou-se daquele de quem é dito, seu Manoel, “Este é o pão que desceu do céu, para que não morra todo aquele que dele comer”. Meu querido irmão completou dizendo que José repousou na Igreja e lá dormiu. No dia seguinte, quando levantou-se, já não o encontrou na igreja. Creio que ainda tinha muito mais para contar-me, principalmente daquilo que sentira, mas pela vontade de Deus, esgotou-se papel e tinta…

sexta-feira, 10 de junho de 2016

A Última Missa em Latim

– Foi tão bonito, Pai. Foi tão bonita a tua presença. Tanta felicidade, que não havia como acreditar no que estava acontecendo. Algumas vezes, parecia que tuas bênçãos derramavam-se sobre nós. Em outras, nem sei como dizer isto, mas julguei que as pessoas olhavam para mim como se desejassem estar no meu lugar. Ou seria um pouco de vaidade tomando conta de mim? Perdoa-me, meu Pai, pois até um pobre homem como eu também fica sujeito a essas fraquezas.

No trajeto em direção à velha igreja, para onde se dirigia todas as manhãs a fim de tocar os sinos que anunciavam a missa aos fiéis, seu Ludinho procurava colocar os pensamentos em ordem, com a mente voltada para a noite do dia anterior, um domingo, quando ajudou Monsenhor a celebrar a última missa em latim para os paroquianos da cidade.

Quantas vezes, recordou, e nunca mais haveriam de se repetir as cerimônias em que tomara parte ativa durante toda sua vida. Nunca mais ouviria os cânticos que tanto compraziam Monsenhor e que ele mesmo se esforçava para acompanhar, repetindo-os muito mais com o pensamento do que com a própria voz. Não, seu Ludinho sabia que as coisas nunca mais seriam como antes.

Envolvido em profundo recolhimento, ocupara ele, na noite anterior, o seu lugar na celebração, de corpo e alma entregue aos cuidados de um ritual que, mesmo sabendo-o repetido e de cor, em certas ocasiões fazia nele ressurgir a mesma emoção que sentiu ao ajudar Monsenhor pela primeira vez. Tão forte, que jamais teria como esquecê-la. Dessa vez, no entanto, ele sabia que fora tudo diferente.

– Alguém chegou a lhe dizer, não é mesmo seu Ludinho, que a última vez é sempre diferente?

Bastante idoso, todos os dias seu Ludinho acordava muito cedo. Levantava-se com o canto das primeiras aves que, de quintal em quintal, desdobravam-se para lembrar que, também para ele, era chegada a hora da alvorada. E levantava fazendo o seu “Em nome do Pai”, em paz consigo mesmo e entregue às lembranças de uma vida que os mais antigos diziam reportar ao tempo de seus avós. O que, na verdade, não passava de simples brincadeira, apesar de ninguém conhecer a verdadeira idade que ele tinha: oitenta anos, de qualquer forma, pareciam lhe cair bem. Fosse como fosse, seu Ludinho nunca admitiu ter mais de setenta. E, em respeito ao seu desejo, esta ficou sendo a sua idade: setenta anos que, repetidos, ano a ano, continuavam a ser apenas setenta anos.

Seu Ludinho andava muito devagar e seus passos, um a um, arrastando-se pelas calçadas, demoravam três a quatro vezes o tempo gasto por uma pessoa de meia idade em igual trajetória. Sua estatura mal ultrapassava o ombro de uma pessoa de médio porte e como seus olhos estavam sempre voltados para o chão, isso o fazia parecer ainda mais baixo do que era.

Usando, o mais das vezes, um mesmo terno de cores encardidas, corroído pelo uso e nada proporcional à fragilidade de seu corpo, a aparência de Seu Ludinho, recurvado e à distância, não diferia muito de um bem antigo sacristão; e olha ali, devagarinho, lá vai ele.

Naquela manhã, ao se dirigir à igreja, uma chuvinha fina e persistente surpreendeu-o a poucos passos de sua casa. Ao contrário de seus hábitos, estava bastante atrasado, mas, como havia se esquecido do guarda-chuva, recostou-se debaixo do beiral de um telhado para ver se as águas passavam. De repente, lembrou-se que, naquele dia, era aniversário de Monsenhor.

– Coitado de Monsenhor – foi-se deixando levar, após muita recusa em dar curso a alguns pensamentos que insistiam em provocá-lo. – Depois de tantos anos, prosseguiu, seria difícil Monsenhor se acostumar com os novos tempos que chegavam para a Igreja. Quem celebrou missa em latim a vida inteira não veria com bons olhos a nova liturgia, toda ela de tal modo instituída que a qualquer um seria dado agora, fácil, fácil, desvendar os seus mistérios e o que mais fosse.

Não, seu Ludinho não concordava nem um pouco com o que estava acontecendo. Para ele, o mais bonito da missa sempre esteve associado à forma como se cumpriam os seus rituais. Não via sentido em substituírem o latim nos textos sacros. Depois, transpostos para o português, eles ficariam transparentes demais, irreconhecíveis mesmo, sem dizer que até um vagabundo como Zé Margarida, esse arruaceiro incapaz de soletrar o próprio nome, poderia vir a entender o que até então fora exclusividade de alguns poucos, entre os quais, ele próprio, seu Ludinho, conquistara seu lugar.

Missa em latim, para seu Ludinho, era outra coisa. Essa ficava somente ao alcance da competência de Monsenhor. Do seu zelo pelas tradições. Do fervor com que se entregava às suas preces. E de conhecer tão a fundo o antigo idioma dos romanos que poucos conseguiriam se expressar naquela língua com tanta fluência como ele.

Dava gosto assistir às suas missas. Sem dizer do bem que fazia a seu Ludinho ouvi-lo pronunciar uma daquelas bonitas citações tão presentes em seus sermões. Uma delas, por exemplo, ele sabia quase de cor. Tamanha era sua carga de persuasão e envolvimento que, mais de uma vez, após Monsenhor traduzi-la em linguagem corrente, seu Ludinho notou uma ponta de arrepio subir à face dos fiéis lá melhor aquinhoados com os bens desta vida, enquanto os outros, os mais desafortunados, como que suspiravam aliviados diante de algo que caía como uma luva para compensá-los da pobreza e da penúria dos seus dias.

E foi com a mente voltada para essas recordações que seu Ludinho, recompondo-a como pôde, ouviu de novo ressoar a velha sentença tantas vezes proclamada por Monsenhor; aquela que fala da passagem de um camelo pelo buraco de uma agulha:

Facilius est camelum per foramen acus transire do que um rico entrar no reino dos céus.

– E abolirem uma prática dessas – queixou-se, contrariado, por ter esquecido algumas palavras do texto original.

Bem, em vista dos laços que os uniam, é verdade que Monsenhor continuaria a ser para ele o mesmo Monsenhor de sempre, mas, de qualquer forma, diante do ocorrido, não via como continuar ajudando-o nas celebrações.

– Ah, os tempos estão mudando, seu Ludinho – soprava-lhe uma voz no fundo do pensamento. – Não vê que, se todas as coisas passam, as missas um dia também acabariam se modificando?

A chuva começou a aumentar e seu Ludinho recostou-se sob a proteção do beiral, procurando distrair-se com os filetes de água que escorriam nas calçadas. Embora não quisesse demonstrar, ele estava bastante contrariado. De mais a mais, ajudar a missa em português jamais seria tarefa de seu agrado. E disso ele já dera provas: desde o primeiro momento, recusou-se a aprender os novos textos para acompanhar Monsenhor na celebração. Foi preciso prepararem outro sacristão, treiná-lo, corrigi-lo, incentivá-lo, comprovando que não seria nada fácil arranjarem um substituto à altura de suas funções.

E pensar que havia gente satisfeita com as mudanças. Havia, seu Ludinho sabia disso. Alguns, então, além de aplaudi-las ao menor pretexto, embaralhavam de tal modo as coisas que ficava difícil saber aonde pretendiam chegar. Lá mesmo, nas imediações da casa paroquial, não morava um professor, cheio de idéias estranhas, a quem ele sempre devotara manifesta antipatia e desconfiança? Pois bem, não foi ele, o professor, quem disse, durante as cerimônias da Semana Santa, que um dia a Igreja abandonaria a mesa dos ricos para aquecer a morada dos pobres?

– Agora, mais essa – reclamava seu Ludinho.

Na verdade, voltando ao que mais o afligia, ele não via motivo para ser alterado um ritual que, na sua mente, se confundia desde o início dos séculos com a transfiguração de um Deus misericordioso que, a cada santa missa, renovava o supremo sacrifício para se oferecer à comunhão dos santos e dos homens. Se bem lhe haviam dito que a mudança fora ordenada por Roma. Mas, nem por isso aceitaria o que, a seu juízo, não passava de um grande erro.

– Fica difícil entender, Seu Ludinho. Afinal, o Papa é infalível. Como admitir então que ele pudesse se enganar numa questão delicada como essa?

Cercado de dúvidas, seu Ludinho, para não se aborrecer ainda mais, preferiu retornar à noite anterior. Lembrou-se, então, dos gestos de Monsenhor, do modo sereno como ele soube se conduzir, de seus paramentos, da envolvente espiritualidade que tomou conta da igreja durante a celebração. Um brilho diferente começou a transparecer em seus olhos.

Viu-se de joelhos, diante do altar, contemplando o sacrário que abrigava a presença viva do Senhor. As imagens dos santos, em curtos gestos de adeus, evocavam, uma a uma, as bem-aventuranças do paraíso. Uma crescente sensação de quietude começou, então, a envolvê-lo, a apaziguá-lo, abrandando aos poucos suas contrariedades e aflições.

Assim que o Kyrie eleison, unindo as vozes dos fiéis em uma mesma e comovida oração, espalhou-se pela nave da igreja, seu Ludinho, tomado de emoção, reconheceu nelas a própria voz do Senhor, como a dizer que ele um dia também estaria no céu contemplando-O face a face.

E como esquecer a passagem em que, após a eucaristia, Monsenhor, com as mãos erguidas, proferiu emocionado o Benedicat vos omnipotens Deus?

Ao que os fiéis, ajoelhados, responderam com o sinal da cruz.

– Pater et Filius et Spiritus Sanctus – aduziu Monsenhor.

Naquele instante, um verdadeiro estado de êxtase tomou conta de seu Ludinho. E, como se não bastasse tudo isso, emocionou-se ainda mais ao relembrar o momento em que, Monsenhor, com voz grave e solene, proclamou, pela última vez, o Ite, missa est.

Ite, missa est, missa est, missa est: esta despedida incomodava-o desde a noite anterior, ressoava como um tremor em seus ouvidos, parecia persegui-lo, retornando cada vez mais forte, como se o est, est, est, quisesse romper seus tímpanos, ensurdecendo-o para sempre a fim de impedi-lo de ouvir as palavras corriqueiras que viriam substituir o que para ele seria insubstituível até o fim.

Agora, no entanto, estava ele ali inconformado e sem ter como dissociar a sua Igreja de uma frágil embarcação, velejando ao sabor das ondas sem saber a que porto chegaria.

A sua santa amada Igreja, abençoando seus filhos e libertando-os do pecado e da condenação eterna, graças ao sacrifício do Filho de Deus que se fez homem e morreu na cruz para salvar todos os que nele acreditassem.

A sua santíssima Igreja, acolhedora e de braços abertos, com os fiéis assistindo às missas aos domingos, batizando seus filhos, confessando-se e comungando, que a vida era cheia de sacrifícios e a lembrança do inferno, seu Ludinho sabia muito bem disso, mexia com os brios de qualquer um.

Depois, ele podia até estar enganado, afinal ninguém é dono da verdade, mas, a seu ver, a opinião do professor também continha um amontoado de erros, porque os pobres, pelo menos os que freqüentavam a igreja, não lhe pareciam tão pobres assim. Melhor seria dizer remediados, já que gozavam de boa saúde, eram muito educados e alguns nunca deixavam de bem vestir e até de engraxar os sapatos para a missa dos domingos.

Por que, então, essa mania de as pessoas ficarem generalizando as coisas a ponto de abranger em seus devaneios um Zé Margarida qualquer, que, de tão inconveniente, ninguém hesitaria em colocar para fora da igreja, caso ele se atrevesse a aparecer por lá?

– Ah, não – resmungou seu Ludinho. – As coisas estão certas do modo que Deus as dispôs. Ele mesmo, na sua infinita sabedoria, nada tinha a ver com o fato de existirem pessoas muito ricas e de outras não possuírem coisa alguma. E a Igreja também não estava aí para resolver nada disso não. Sua verdadeira missão ultrapassava esse amontoado de miudezas terrenas. Ou haveria algo capaz de superar o consolo firmado na crença de que, no dia do juízo final, os justos, pobres ou ricos, todos eles seriam perdoados e recompensados, por mais desiguais que lhes tivessem sido os favores desta vida?

– Ah, serão mesmo, seu Ludinho? Então ninguém será condenado?

– Bobagem perder tempo com isso – reagiu.

Mas, os pensamentos não lhe davam trégua: afinal de contas, ele mesmo, seu Ludinho, também não era pobre? E por que sempre fora aceito, sem sofrer qualquer tipo de discriminação? Claro, porque havia dado um rumo certo à sua vida, colocando Deus acima de todas as coisas, cumprindo com acerto o seu dever e conservando sempre a maior distância do pecado, que isso nunca foi coisa para andar à solta em seu caminho.

Por mais que raciocinasse, no entanto, as dúvidas retornavam mais fortes: a missa em português, a lembrança do professor, sua estranha previsão sobre o futuro da Igreja, tão diferente do modo como acostumara-se a concebê-la. Tudo isso, em sua mente, misturava-se a Zé Margarida e, ele, reagindo, repeli-as, recusava-as, tentava em vão contrapor-se ao que não tinha como aceitar.

– Bobagem ficar se desgastando desse jeito – resmungou, mais uma vez. – Não vale a pena queimar as mãos em tão pouca fogueira.

Na verdade, seu Ludinho, não vale a pena queimá-las em fogueira alguma. Ou vale? E se tudo fosse verdade? Essa história da Igreja ao lado dos pobres, o dia em que Monsenhor seria substituído nas pregações, Zé Margarida, imagina, Zé Margarida compreendendo o que os próprios séculos recusaram-se a mostrar de forma diferente, fazendo tudo parecer de um mesmo igual para todos, como se as coisas pudessem ser vistas e avaliadas de um só ângulo e, assim, iguaizinhas e sem mudanças, continuariam per omnia saecula saeculorum.

– Mas, continuariam mesmo, seu Ludinho? – indagou-lhe a tal vozinha que, em algum lugar, dentro dele, teimava em vir à tona.

* * *

Súbito, a chuva passou. Seu Ludinho, olhando para uma poça d’água, viu nela refletida a sua própria imagem até que um novo pingo, caindo da goteira mais próxima, espargiu-se sobre a poça, diluindo o seu reflexo e também o reflexo de um tempo que ele pressentia pertencer agora a um mundo em que as palavras e as ações se confundiriam, cada vez mais, com os santos e os homens, em suas falas e profundidades.

E os santos e os homens, em suas falas e profundidades, também seriam confundidos com outros homens e outros santos que, dia após dia, com latim ou sem latim, haveriam de perceber que, por mais que as coisas mudem, nunca mudam as agulhas, os camelos, e os que aos céus não chegarão; apesar da previsão do professor, do próprio Zé Margarida e até mesmo das palavras de Monsenhor que, no fundo, bem no fundo, nunca se sabe. Ou sabe alguém?

De Renato Sampaio

Transcrito de Contos de bom humor. (Parte II – Outros Contos) – Belo Horizonte, 2007. Edições Hematita, 128 páginas

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

O farisaísmo e o rubricismo de que nos acusam e a verdade do evangelho

“As palavras dessa gente destroem como a gangrena. Entre eles estão Himeneu e Fileto, que se desviaram da verdade dizendo que a ressurreição já aconteceu e transtornaram a fé em alguns. Contudo, o sólido fundamento de Deus se mantém firme, porque vem selado com estas palavras: O Senhor conhece os que são seus (Nm 16,5); e: Renuncie à iniquidade todo aquele que pronuncia o nome do Senhor (Is 26,13).”
II Timóteo 2, 17-19

Por conta do post que publicamos recentemente acerca daquilo que A IGREJA DIZ sobre as Missas de “cura e libertação”, fomos publicamente chamados de imbecis (por mais que o próprio Cristo Jesus nos proíba diretamente de dizer tal coisa a nossos irmãos; cf. São Mateus 5, 22). Ainda aos que não sabem, este que vos escreve serve como escravo ao Altar de Cristo, e por ser definitivamente fiel à Roma e ao nosso Arcebispo, disseram-nos que deveríamos nos envergonhar e abandonar o ministério extraordinário do acolitato ao qual Jesus nos chamou.

Longe de ser de nosso interesse prolongar este tema, gostaríamos de usá-lo como ponto de partida para este post uma vez que tal posicionamento em tudo se relaciona com aquilo que o título deste post se propõe a descrever. Afinal estão errados aqueles que posicionam-se imutavelmente à favor do Sagrado Magistério, da Palavra de Deus e da Santa Tradição de sempre e os defendem como nos pede o Senhor?

“[…] Sê fiel até a morte e te darei a coroa da vida.”
Apocalipse 2, 10

De certo que muitas de nossas posturas podem parecer anacrônicas, velhas, carcomidas, mas é isto que Deus nos pede! Muitos dos que comparam estas nossas posturas àquelas dos fariseus – cujo fervor à rubrica tornavam a lei estéril – não reconhecem no Evangelho o vigor da Lei que Cristo tornou perfeita por ser ele mesmo o Grande Legislador. Jesus afirmou com toda a sua autoridade que não veio ao mundo para abolir a lei ou os profetas, mas veio para com a Sua Palavra edificante e o seu Preciosíssimo Sangue apagar a mácula do pecado original e imprimir em nossa alma, no lugar do pecado, a totalidade da lei (cf. São Mateus 5, 17).

Por tanto, é da natureza do catolicismo ser não só uma “Religião do Livro” (ou dos livros), mas um povo de leis e preceitos. Preceitos estes que recebemos pela inspiração do Paráclito que o Senhor enviou sobre nós:

“Mas o Paráclito, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, ensinar-vos-á todas as coisas e vos recordará tudo o que vos tenho dito.”
São João 14, 26

Uma vez que estas leis nos foram dadas pelo próprio Deus, que nos ensinou todas as coisas enquanto seu povo e que também depositou em Pedro a autoridade máxima sobre a Igreja e seus fiéis, devemos respeitá-las como Vontade de Deus que são. Sem condições, vontades nossas ou caprichos.  A Palavra nos alerta que não devemos nos desviar do ensinamento dos Apóstolos e seus sucessores (nossos Bispos):

“Assim, pois, irmãos, ficai firmes e conservai os ensinamentos que de nós aprendestes, seja por palavras, seja por carta nossa.”
II Tessalonicenses 2, 15

Não pela tradição ou pela lei em si, mas segundo São Pedro, guardião da fé Católica e ponto de união entre a Igreja Militante e a Igreja Celeste, que nos ensinou que:

“Assim como houve entre o povo falsos profetas, assim também haverá entre vós falsos doutores que introduzirão disfarçadamente seitas perniciosas. Eles, renegando assim o Senhor que os resgatou, atrairão sobre si uma ruína repentina. Muitos os seguirão nas suas desordens e serão deste modo a causa de o caminho da verdade ser caluniado.”
II São Pedro 2, 1s

Por tanto, não há em nosso comportamento vestígio de farisaísmo acusador ou rubricismo. Há no entanto, um carinhoso amor pela lei que Deus nos deixou e pelo ensinamento que nos deu por meio de seu Espírito Santo. Por isso, queremos responder de uma só vez a pergunta que nos fizeram (“e a fé do povo, onde fica?”), com o ensinamento dos Veneráveis, Beatos e Santos de Deus, homens e mulheres justos que em tudo foram fiéis a Deus:

Venerável Papa Pio XII, Carta Encíclica “Mediator Dei”, 1947

“[…] Nós assinalamos, não sem preocupação nem sem temor, que alguns são excessivamente ávidos de novidade e se transviam fora dos caminhos da sã doutrina e da prudência. Porque, querendo e desejando renovar a santa Liturgia, eles promovem, muitas vezes, a intervenção de princípios que, em teoria ou na prática, comprometem esta santa causa e, às vezes até as mancham com erros que afetam a fé católica e a doutrina ascética.

A pureza da fé e da moral deve ser a regra principal desta ciência sagrada que é preciso conformar em todos os pontos aos mais sábios ensinamentos da Igreja. É, portanto, Nosso dever louvar e aprovar tudo aquilo que é bom e conter ou censurar tudo aquilo que se desvia do caminho justo e verdadeiro […]”

Venerável Papa Pio XII, Discurso do dia 31 de maio de 1954

“[…] Existem hoje alguns, assim como nos tempos apostólicos, que se apegam mais do que convém às “novidades” no temor de passar por ignorantes de tudo o que arrasta um século de progressos científicos: constata-se, então, que eles, na sua pretensão de se subtrair da direção do Magistério sagrado, se vêm em grande perigo de se afastar pouco a pouco da verdade divinamente revelada e de induzir outros a irem com eles ao erro. – As “novas opiniões”, quer se inspirem elas em desejo condenável de “novidades”, quer em qualquer louvável razão […]”

Queremos lembrar ainda, antes de citar o amabilíssimo São Pio X, que uma vez que muitas destas “novidades” que buscam inserir na Tradição da Igreja para sobrepujá-la ou reformá-la, desejam apenas criar uma nova “teologia do arrepio”, modernista, que reduz o culto divino e a relação do homem com Deus à uma reles troca de favores sensoriais nas quais eu só fico feliz se “me sentir ()”. Sinta-se à vontade para inserir qualquer coisa dentro destes parênteses. E sobre essa doutrina modernista nos alerta o santo:

São Pio X, Carta Encíclica “Pascendi Domini Gregis”, 1907

“[…] Por força desta doutrina, a razão humana fica inteiramente reduzida à consideração dos fenômenos, isto é, só das coisas perceptíveis e pelo modo como são perceptíveis; nem tem ela direito nem aptidão para transpor estes limites…”

Retornai pois, irmãos todos, à Verdade do Evangelho que é Cristo Jesus.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Missas de cura e libertação, o que diz a Igreja?

Para os católicos letrados, seria fácil de responder que Roma jamais promulgou um próprio para uma Missa deste tipo. Por tanto, se não há no Missal Romano um próprio para que se celebre tal culto, não se deve celebrá-lo. De fato, há no missal uma seção intitulada “Missas para diversas necessidades”, a qual pode ser utilizada para diversas finalidades particulares. Existem ainda as Missas especiais de Rogações, as Missas para as Quatro Têmporas e uma Missa “pelos enfermos”. Mas e Missas para “curar e libertar”?

Poderíamos argumentar que “toda Missa cura e liberta”, uma vez que basta o Milagre Eucarístico e a comunhão para sanar todos os males, mas ao que parece este mesmo argumento se vê ultrapassado uma vez que há padres utilizando-se de argumentos espertos que vão desde “estas Missas se celebram de uma forma diferente” até “dinâmicas” que são introduzidas ao gosto do freguês, mesmo sem negar a natureza curativa e libertadora do Sacrifício de Cristo.

Os dois argumentos acima são falhos e criminosos em si mesmos, mas não é deles que trataremos. Definamos então as características básicas de uma Missa de Cura e libertação e analisemos se sua natureza condiz ou não com a Doutrina da Igreja. Nestas Missas são introduzidos:

  1. Orações por cura e libertação;
  2. Cantos emotivos e não litúrgicos;
  3. Homilias artificiais, escandalosas e destoantes da Liturgia da Palavra no dia;
  4. Novos momentos na ação litúrgica;
  5. Exposição do Santíssimo Sacramento no ostensório ainda durante a Missa, e;
  6. Gestos alheios às prescrições do Missal Romano.


Reconhecidas estas introduções, analisemos então.

Quanto ao número 1, das orações por cura e libertação.

A autoridade perene e inequívoca do Santo Padre foi exercida por meio da Congregação para Doutrina da Fé, na “Instrução sobre as orações para alcançar de Deus a cura” nos seguintes termos:

Art. 2 – As orações de cura têm a qualificação de litúrgicas, quando inseridas nos livros litúrgicos aprovados pela autoridade competente da Igreja; caso contrário, são orações não litúrgicas.

Art. 3 – § 1. As orações de cura litúrgicas celebram-se segundo o rito prescrito e com as vestes sagradas indicadas no Ordo benedictionis infirmorum do Rituale Romanum.(27)

Por tanto, qualquer oração por cura que não esteja já inserida nos textos litúrgicos ou que não tenha sido devidamente aprovada pelo Bispo Diocesano, conforme o Can. 838 do CDC, não são litúrgicas e NÃO PODEM SER UTILIZADAS NA MISSA. Da mesma forma, qualquer Missa que deseje rogar a Deus pela cura dos enfermos DEVE SEGUIR A PRESCRIÇÃO CANÔNICA em sua forma, o que não inclui nenhuma das outras introduções das quais trataremos.

Não é da tradição católica, e nem foi tratado ou autorizado por Roma em qualquer documento, orações por “libertação” a não ser aquelas dos ritos de exorcismo. Não se podendo inserir orações na Santa Missa alheias àquilo que ordena a Santa Sé, nos restaria questionar se ao menos as de exorcismo poderiam ser utilizadas para o fim de libertação. Sobre isso diz o mesmo documento:

Art. 8 – § 1. O ministério do exorcismo deve ser exercido na estreita dependência do Bispo diocesano e, em conformidade com o can. 1172, com a Carta da Congregação para a Doutrina da Fé de 29 de Setembro de 1985(31) e com o Rituale Romanum.(32)

§ 2. As orações de exorcismo, contidas no Rituale Romanum, devem manter-se distintas das celebrações de cura, litúrgicas ou não litúrgicas.

§ 3. É absolutamente proibido inserir tais orações na celebração da Santa Missa, dos Sacramentos e da Liturgia das Horas.

O direito permite, no entanto,

§ 2. Durante as celebrações, a que se refere o art. 1, é permitido inserir na oração universal ou «dos fiéis» intenções especiais de oração pela cura dos doentes, quando esta for nelas prevista.

Por tanto, mesmo na Oração Universal a oração pela cura dos enfermos só se faz quando for canonicamente prevista.

Quanto ao número 2, dos cantos emotivos e não litúrgicos.

Já é fato batido e discutido em inúmeros documentos oficiais da Igreja, alguns infalíveis, qual a natureza do canto litúrgico (nO Quirógrafo de São João Paulo II, Tra le sollecitudini, no Documento da 48ª Assembleia Geral da CNBB, etc). No entanto, a “Instrução sobre as orações para alcançar de Deus a cura” ainda nos diz:

Art. 9 – Os que presidem às celebrações de cura, litúrgicas ou não litúrgicas, esforcem-se por manter na assembleia um clima de serena devoção, e atuem com a devida prudência, quando se verificarem curas entre os presentes. Terminada a celebração, poderão recolher, com simplicidade e precisão, os eventuais testemunhos e submeterão o facto à autoridade eclesiástica competente.

Sem estimular choramingos, labaxúrias ou berros estridentes. O clima da celebração deve manter-se o mesmo de toda celebração litúrgica, principalmente da Eucaristia: silencioso, devocional, piedoso e amoroso.

Quanto ao número 3, das homilias artificiais, escandalosas e destoantes da Liturgia da Palavra no dia.

O Papa Bento XVI nos fala na Sacramentum Caritatis (SC) e na Verbum Domini (VD) sobre a natureza das homilias:

1) A sua «função [portanto, o seu fim] é favorecer uma compreensão e eficácia mais ampla da Palavra de Deus na vida dos fiéis» (SC n. 46 e VD n. 59).

2) «A homilia constitui uma atualização da mensagem da Sagrada Escritura, de tal modo que os fiéis sejam levados a descobrir a presença e eficácia da Palavra de Deus no momento atual da sua vida» (VD n. 59).

3) «tenha-se presente a finalidade catequética e exortativa da homilia» (SC n. 46). A respeito do caráter exortativo, a VD menciona a conveniência de, mesmo nas breves homilias diárias, «oferecer reflexões apropriadas […], para ajudar os fiéis a acolherem e tornarem fecunda a Palavra escutada» (n. 59).

4) Um ponto importante sobre o foco central da homilia: «Deve resultar claramente aos fiéis que aquilo que o pregador tem a peito é mostrar Cristo, que deve estar no centro de cada homilia» (VD n. 59).

Por tanto, não há lugar na homilética litúrgica para homilias como as que costumam figurar nestas Missas.

Quanto ao número 4, dos novos momentos na ação litúrgica.

Não raro, os sacerdotes que se dispõem a este show de horrores na liturgia costumam introduzir momentos estranhos à ação litúrgica que se celebra. Segundas homilias, interrupções à oração eucarística, etc.

Quanto a isso a Instrução Geral do Missal Romano é clara e direta (IGMR 46 à 90), indicando que a Santa Missa consta das seguintes partes:

  • Ritos Iniciais (entrada, saudação, ato penitencial, Kýrie, Glória e oração coleta);
  • Liturgia da Palavra (leituras bíblicas, salmo responsorial, aclamação ao Evangelho, proclamação do Evangelho, homilia, profissão de fé e oração universal);
  • Liturgia Eucarística (preparação dos dons, oração sobre as oblatas, oração eucarística, rito da Comunhão oração dominical, rito da paz, fração do Pão e Comunhão);
  • Rito de Conclusão (notícias breves, saudação e bênção do sacerdote, despedida da assembleia, beijo no altar).


Nem dentro nem fora destes momentos a liturgia aceita quaisquer inovações. Algumas celebrações, em especial as pontificais, possuem de fato momentos adicionais mas, no entanto, foram especificamente descritos pela Santa Sé nos livros litúrgicos (Cerimonial dos Bispos, Pontifical Romano, Ritual de Bênçãos, etc) e se prestam à finalidade sacramental para a qual foram criados, em conformidade com a Doutrina e Tradição de sempre.

Quanto ao número 5, da exposição do Santíssimo Sacramento no ostensório ainda durante a Missa.

Sobre o uso da exposição do Santíssimo Sacramento, ou procissão sem o fim para o qual reza a norma, que é a adoração, a Santa Igreja considera ilegítimo, como está abaixo, no Documento do Cardeal Ratzinger já citado anteriormente:

“[…]Também estas celebrações são legítimas, uma vez que não se altere o seu significado autêntico. Por exemplo, não se deveria pôr em primeiro plano o desejo de alcançar a cura dos doentes, fazendo com que a exposição da Santíssima Eucaristia venha a perder a sua finalidade; esta, de fato, «leva a reconhecer nela a admirável presença de Cristo e convida à íntima união com Ele, união que atinge o auge na comunhão sacramental”».

Oras, se o auge da união com Cristo se atinge na comunhão sacramental, e esta é parte da Celebração Eucarística, é para Cristo dentro de si que se deve olhar e não para fora! Isto porque “aqui dentro” ele está mais próximo do que “ali fora”. Por tanto, o rito de exposição do Santíssimo Sacramento não cabe na Santa Missa (salvos os casos pontificais presentes nos textos litúrgicos) pois distancia o fiel desta realidade íntima da presença real de Cristo em si.

Quanto ao número 6, dos gestos alheios às prescrições do Missal Romano.

A IGMR é clara:

42. Os gestos e atitudes corporais, tanto do sacerdote, do diácono e dos ministros, como do povo, visam conseguir que toda a celebração brilhe pela beleza e nobre simplicidade, que se compreenda a significação verdadeira e plena das suas diversas partes e que se facilite a participação de todos[52]. Para isso deve atender-se ao que está definido pelas leis litúrgicas e pela tradição do Rito Romano, e ao que concorre para o bem comum espiritual do povo de Deus, mais do que à inclinação e arbítrio de cada um. A atitude comum do corpo,que todos os participantes na celebração devem observar, é sinal de unidade dos membros da comunidade cristã reunidos para a sagrada Liturgia: exprime e favorece os sentimentos e a atitude interior dos presentes.”

Assim, cremos ter justificado conforme o ensinamento da Igreja que: não, Missa de Cura e Libertação NÃO PODE.

Apologética do Futuro: o menino que queria se casar com uma robô

Definitivamente não é fácil ser um padre católico nestes tempos. São cinquenta anos de ordenação, oitenta de católico e mais de 100 anos de vida seu Manoel. Estamos no ano 2100 e o povo ainda me aparece com essas perguntas absurdas? Ah seu Manoel, parece o tempo em que os Católicos discutiam se homem pode casar com homem, vê se pode? Hoje mesmo apareceu um jovenzinho aqui na paróquia, disse que queria conversar. Eu o recebi no meu escritório e eis que ele começa:

– Padre Alexandre eu preciso muito falar com o Senhor…

– Oras, mas fale logo então meu filho. Tu não já tá aqui?

Pronto, era o que ele precisava para desatar a falar do seu relacionamento. Disse que se sentia feliz, que finalmente havia encontrado a pessoa que ele amava. Falou maravilhas da “pessoa” por quem estava apaixonado, delirante. Como um bom padre, fiquei feliz por ver um jovem já se preparando para casar, constituir família.  Aí foi que apertou seu Manoel, quando eu quis saber quem era a felizarda por conquistar aquele bom rapaz.

– É aí que está o problema, Padre…

Gelei na hora né, pensei que tinha voltado no tempo e ia ouvir de novo aquela história de “sabe o que é Padre, eu gosto de um menino e queria casar na Igreja…”, e já fui logo cortando, dizendo que ele era Católico e que eu mesmo o havia catequizado e muito bem, pra não me vir com absurdos. Então ele jogou a bomba de lá pra cá:

– Que é isso Padre, eu sou homem! Eu gosto é de uma menina, mas ela…

– Ela o que filho de Deus? Tem um pinto?

– Mais aí não seria menina, né Padre? Deus é mais…

– Pois então fale logo homem, que eu não sei o que você quer dizer!

– Ela é um robô Padre…

Tá certo, eu sou velho e pensei que já tinha visto de tudo na minha vida seu Manoel: errei feio. Nunca tinha passado pela minha cabeça que esse absurdo ia parar aqui na minha paróquia e que eu é que ainda ia ter que ouvir, se ao menos fosse o vigário a estar lá aquela hora… Não teve jeito, o menino parecia apaixonado mesmo. Na minha época de juventude, quando nem pensava em ser padre, nós conversávamos sobre essa possibilidade. Mas isso foi o que, lá pelo anos 2010…

O que eu fiz seu Manoel? Peguei o catecismo oras. Não ia perder tempo explicando o que já tinha sido dito tantas vezes. Falando nisso, eu acho que precisamos atualizar esse catecismo de 1992 pra poupar os padres desse trabalho. Falei logo pra ele:

– Olha aqui meu filho, eu nem imaginava que você fosse namorar um robô. Tá certo que hoje todo mundo tem um em casa, eu mesmo tenho a faxineira aqui mas, veja, são máquinas que você faz com a sua mão. O amor reservado aos esposos, verdadeiro, só pode existir entre pessoas que são obra de Deus e de sexos opostos. Na minha época, tinha gente que se apaixonava por muro, bicicleta e até brinquedos sexuais, o que se você pensar bem, dá no mesmo que se apaixonar por um robô…

– Mas Padre, eu a amo de verdade!

– Eu não disse que você não ama criatura, eu falei que esse amor que você sente não é o amor de esposos. É um amor que não pode dar frutos senão pelas obras do homem meu filho. Deus falou através da Igreja no catecismo aqui ó:

"§1625 Os protagonistas da aliança matrimonial são um homem e uma mulher batizados, livres para contrair o Matrimônio e que expressam livremente seu consentimento."

– Tá vendo, homem e mulher! Nada de homem com homem, mulher com mulher, gente com robô, cachorro ou o diabo que seja. É um homem e uma mulher. Eu entendo que você se sinta apaixonado e que tenha sentido prazer nessa relação, mas a ordem das coisas de Deus não muda. Nem a Igreja pode mudar. E se eu bem te conheço, tu é CA-TÓ-LI-CO, viril, e tem coragem pra escolher Jesus.

– É verdade Padre, mas eu gosto dela…

– Então vá aprendendo a desgostar, vá rezando e pedindo a Deus que mande a sua Maria, a mulher que vai encher esse presbitério aí na frente de criança pra eu batizar. Aprender a separar os amores, amando mais a Deus!

Pois é seu Manoel, saiu de lá quieto sem dizer mais nada. Mas o que eu podia fazer? Só disse a verdade. Depois eu fiquei sabendo que ele terminou lá o relacionamento e estava agora se engajando no movimento TLC e gostando de uma garota de lá, olha que alegria! Enquanto isso eu vou levando a vida, esperando pra ver qual vai ser a próxima invenção do povo. Deus lhe abençoe seu Manoel, outra hora proseamos melhor e lhe conto uma nova. Vá com Deus!

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Se queres empregar bem tua vida, pensa morte

“Estando embora vivos, somos a toda hora entregues à morte por causa de Jesus, para que também a vida de Jesus apareça em nossa carne mortal.” (2 Coríntios 4:11)


O significado do antigo ditado maçônico que intitula este texto é talvez a base de todo o estudo esotérico da Via Cardíaca. Compreender a natureza da transfiguração não é um trabalho simples pois exige de nós a aceitação de verdades dolorosas que compõem não somente a parte intelectual do nosso trabalho, mas também sua parte prática.

Estas verdades dizem respeito ao maior de todos os tabus: a morte. A incompreensão deste ser-ideia tem levado o homem ao erro da vida pela vida, que o encaminha a uma existência vazia de sentido e significado, baseada e cunhada na simples valoração social. O medo da morte torna-a mistério, quando na verdade é vida e luz primordial.

O propósito de nosso santo trabalho é a obtenção de um estado puro de espírito, onde aquilo que deveria ser ceifado, foi, e de tudo sobrou apenas a alva luz do Cristo. No entanto, para este processo, tanto ser iniciado quanto continuado, é necessário que nos entreguemos a um processo de aprendizado e auto-domínio lento e contínuo que culmina na morte das paixões.


Se virmos nossa vida como um ciclo, perceberemos que a morte física é apenas um ponto no ciclo de nossa vida espiritual. No entanto, esta morte física não é a morte que buscamos já que é transitória e refere-se somente aos nossos corpos corruptíveis. Em vida, buscamos uma morte mais sutil, que lida com nossos corpos incorruptíveis e que os fortalece por ação direta da luz Divina.

Todos nós estamos, em vida, dominados pelo arquétipo das paixões: “O Diabo”. E mesmo que já tenhamos identificado em nós nossas potencialidades superiores e ponderado na balança da Justiça a nossa vida, não será o todo necessário tomar ciência de Samsara. É necessário, para que as paixões sejam dominadas, passar pela Morte.

A morte com a qual lidamos é santa. A religião Hindu a vislumbra como Kali: a Deusa mãe cujo maior poder e maior ocupação é matar os demônios e beber-lhes o sangue. Sendo esta alegoria deveras consternante para a mentalidade ocidental, ela é próxima daquela desvelada por Yeshua: é preciso que cada um de nós morra na cruz para que neste testemunho de fé morram conosco os nossos demônios.

Este processo é então a parte maior da Obra. Alquimicamente costuma-se dizer que nenhum alquimista que tente dominar as intricadas reações em seu cadinho terá sucesso se não dominar suas equivalente dentro de si. Para viver então é preciso morrer? Resposta curta: sim.

Arduamente o Estudante transforma seu caminho em uma Via Crucis: entrega sua vida à Grande Obra, morrendo, como disse o apóstolo, a toda hora. O Ego inferior, cuja vida e existência impõe a morte sobre o Eu superior não é um corpo simples contra o qual basta desferir um único golpe para que sua morte seja certeira.

Nosso trabalho é como o de Kali: matar um demônio por vez, decepando-lhe a cabeça e sorvendo deles a essência pura, o sangue de onde extraímos a matéria para construção da Pedra. O apóstolo Paulo nos escreveu:

“Porquanto os filhos participam da mesma natureza, da mesma carne e do sangue, também ele participou, a fim de destruir pela morte aquele que tinha o império da morte, isto é, o demônio, e libertar aqueles que, pelo medo da morte, estavam toda a vida sujeitos a uma verdadeira escravidão.”
Hebreus 2:14-15

Desta forma torna-se firme o caráter e calma a mente. Livre daquele que possuía os grilhões de uma vida morta, o Estudante caminha, passo após passo, por uma estrada onde vai morrendo para si e para o mundo, iniciando uma nova vida, ressurreto, da mesma forma que o Cristo Jesus pois, fez em si a verdadeira vinda do Reparador.

terça-feira, 16 de julho de 2013

O Pensamento e a Realização

"Somos o que pensamos. Tudo o que somos surge com nossos pensamentos. Com nossos pensamentos, fazemos o nosso mundo."
Gautama Buddha


Tudo o que inventamos, segundo Jiddu Krishnamurti, é fruto do pensamento. Desde as máquinas que nos servem aos rituais e símbolos na Igreja, tudo foi colocado lá pelo pensamento.

Inclusive a nossa visão de Deus foi criada pelo pensamento, moldada pelas diversas frustrações e imposições (sociais ou não). Neste aspecto, nada é verdadeiramente sagrado, de acordo com a lógica de J. Krishnamurti.

De certo que não podemos negar a veracidade destas afirmações, mas podemos analisá-las e chegaremos a uma conclusão que talvez seja a mesma do próprio Krishnamurti: se o pensamento gera tantos erros, mas é só a partir dele que podemos vivenciar e compreender o mundo (através do exercício da inteligência), a realidade do sagrado só pode ser experimentada em completa liberdade (de pensamento). Somente quando estivermos livres dos estabelecimentos, do medo, do vício, é que poderemos efetivamente perceber o "senso de amor" que permeia todas as coisas.

Estes momentos de liberdade só se manifestam quando a mente está completamente quieta e, por este motivo, o sagrado só se manifesta verdadeiramente no silêncio. O sagrado não é apenas "mais uma coisa" que acontece em nossa vida e percebemos com nossos sentidos inferiores, mas uma benção que ultrapassa nosso senso comum, manifestando em nós capacidades, sensoriais e ativas, antes adormecidas.Neste quesito, o próprio Krishnamurti não conseguiu alcançar a realidade do sagrado pois nunca foi capaz de vencer um de seus mais fortes estabelecimentos: a repulsa às religiões.

De certo modo, é compreensível que o barulho imenso causado pelas diversas adições desnecessárias aos rituais e à incompreensão da natureza dos ensinamentos religiosos tenha afastado tantas boas almas da suprema realização. No entanto, cabe a nós fazer a breve observação de que: o sagrado ocorre em momentos. Desta forma, até mesmo o mais sutil dos ensinamentos pode ser capaz de fazer-lhe silêncio na alma. E como nos ensina a Mística Católica, para permanecermos no estado de graça, é necessária uma busca incessante pela santidade.

Muitos pressupõem que o ascetismo necessário à esta busca transcende a natureza do homem comum, mas se enganam aqueles que veem somente um caminho bifurcado à frente da estrada humana. A busca incessante não requer o puro ascetismo e amor ao sofrimento, características dos santos e santas, mas um empenho diário em fazer cada momento da vida mais silencioso e, por consequência, mais sagrado.

A sacralidade da vida se dá nos pequenos momentos em que nossa alma silencia, e nossa centelha vira chama ativa e modificadora.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Pratyaya e Vritti: as duas naturezas do pensamento

O impulso humano para a ação é composto de pelo menos duas polaridades: a interna, que reflete os desejos e a Inspiração; e a externa, que reflete a influência das múltiplas vibrações exteriores ao homem que influem sobre a sua mente.

Nenhuma ação é puramente exterior, por influência alheia, pois tudo que é Karma (ação), incluindo aí o akarman, é derivado do Pratyaya (temperamento) e do Vritti (reação). O que se diz então é que o homem possui “duas mentes”, partes integrantes da manifestação do Manas (pensador).

Estes conceitos equacionam-se com a natureza do corpo psíquico do ser humano. Sua função é conectar a natureza inferior do homem e o mundo exterior à sua natureza superior e única. No entanto, a forma como se constitui o impede, em primeira mão, de permitir uma visão real do mundo.

Se imaginarmos a mente humana, analogamente, como uma cebola ou um alvo, onde suas “partes” se unem formando um todo bem definível em si, veremos, no centro de todas as partes o Manas. Manas é o que grande parte das escolas ocultistas do ocidente costuma nomear “corpo astral”. Este corpo é nossa parte ultrapessoal e ultraindividual, cuja natureza é única em toda a Criação. É a “alma” que “desperta” o corpo físico. Em termos mais simples: Consciência.



Por ser único e de natureza sutil, Manas precisa de formas intermediárias de manifestação. Ao contrário das duas outras partes da Individualidade, manas não é impessoal. Ele não representa a essência em si, mas a forma pela qual a essência se manifesta. Isto significa que Manas não é um corpo divino, mas a manifestação da natureza divina. É intermediário entre os dois mundos.

Para manifestar-se no corpo físico, a mente que surge ao redor de Manas necessita de dois princípios:
um mais próximo do mundo exterior e outro mais próximo do mundo divino. Estes dois princípios formam o que costumamos nomear Pensamento.

A natureza mais próxima de Manas é Pratyaya. Pratyaya é o que chamamos no ocultismo ocidental de Temperamento. É a parte de nosso pensamento/comportamento que nasce conosco. É manifestado através de quatro princípios básicos, análogos aos elementos da Tradição do ocidente:



Esta parte/natureza de nosso pensamento é imutável. Nasce conosco, e morre conosco. Suas nuances são expostas nos aspectos de nosso Tema Natal e demonstram a forma básica de nossa mente. Prityaya pode ser vista como a semente do homem que virá a ser, pois manifesta-se já na menor infância.

Além de Prityaya está Vritti. Vritti é o pensamento/natureza moldável, que se associa ao temperamento e está mais próximo do mundo material. Representa a ligação entre o mundo exterior e a nossa natureza interior. Nossa educação, nossas relações, e tudo que vem do mundo inferior causa impressões em Vritti. Estas impressões, sempre de natureza única, permanecem armazenadas em nossa memória e vão, de acordo com o temperamento manifestado por Prityaya, definir a ação que tomaremos com base em nosso pensamento.

É impossível alterar Pirtyaya. Nosso temperamento é único e definido. No entanto, conhecê-lo é um passo importante para permitir-nos que nossa consciência efetivamente atue seletivamente sobre aquilo que recebemos do mundo e que impressiona Vritti. Não somos receptores perfeitos nem emissores perfeitos. Aquilo que impressiona o nosso corpo astral e perpetua-se em nossa roda de encarnações é uma mistura daquilo que somos ao nascer e daquilo que nos tornamos com o tempo.

Por isso é tão importante aprender a dominar as nossas duas mentes. Entender como estas duas partes de nosso pensamento se unem em um padrão de comportamento define como nós encaramos o mundo e como somos capazes de fazer com que o mundo nos sinta, encare e reaja à nós. Apesar de não ser possível fazer com que as duas naturezas sigam o mesmo caminho, conhecendo a forma como as duas se manifestam na forma de Movimento (ação) é possível fazer com ambas sirvam ao mesmo propósito e que o Carro (mente) se encaminhe na direção correta.


terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Compreendendo o Cristo Histórico - Parte 1

Conhecereis a verdade e a verdade vos livrará. 
João 8:32

No ano 15 do principado de Tibério (entre 28 e 29 d.C.), um asceta, João Batista, pôs-se a discorrer por toda a terra do Jordão, "proclamando um batismo de arrependimento para a remissão dos  pecados" (Lucas, 3:3). O historiador Flávio Josefo descreve-o como um "homem honesto", que exortava os judeus a "praticar a virtude, a justiça e a devoção" (Antiguidades judaicas, 18, v.2, 116-9). De fato, era João Batista um verdadeiro profeta, iluminado, irascível e veemente, em revolta declarada contra as hierarquias política e religiosa judaicas. Líder de uma seita milenarista, anunciava a iminência do Reino, mas sem reivindicar o título de messias. Seu apelo foi coroado de grande êxito. Entre as pessoas que, aos milhares, acorriam de toda a Palestina para receber o batismo, encontrava-se Jesus, originário de Nazaré, na Galileia. Segundo reza a tradição cristã, João Batista reconheceu nele o messias.

Não sabemos por que motivo Jesus se fez batizar. É certo, porém, que o batismo lhe revelou a dignidade messiânica. Nos Evangelhos, o mistério dessa revelação é traduzido pela imagem do Espírito de Deus descendo como uma pomba e por uma voz dos céus, que dizia: "Este é o meu Filho amado" (Marcos, 1:12; cf. Marcos, 1:11; Lucas, 3,22). Logo depois do batismo, jesus retirou-se para o deserto. Esclarecem os Evangelhos que ele foi "impelido para o deserto pelo Espírito", para ser tentado por Satanás (Marcos, 1:12; Mateus, 4:1-10; Lucas, 4:1-13). O caráter mitológico dessas tentações é evidente, mas seu simbolismo revela a estrutura específica da escatologia cristã. Morfologicamente, o argumento é constituído de uma série de provas iniciatórias, análogas às de Gautama Buda. Jesus jejua durante 40 dias e 40 noites, e Satanás o "tenta": pede-lhe primeiro milagres ("manda que estas pedras se transformem em pães"; leva-o a Jerusalém e coloca-o sobre o pináculo do Tempo, dizendo-lhe: "Se és Filho de Deus, atira-te abaixo") e, em seguida, oferece-lhe o poder absoluto: "Todos os reinos do mundo e a glória deles." Em outras palavras, Satanás oferece-lhe o poder de destruir o Império Romano (e portanto o triunfo militar dos judeus anunciado pelos apocalipses) desde que Jesus se postre diante dele.

Jesus praticou o batismo durante algum tempo, tal como João Batista e provavelmente com maior sucesso (cf João, 3:22-4; 4:1-2). Mas, ao saber que o profeta fora preso por Herodes, Jesus deixou a Judeia e dirigiu-se para sua terra natal. Explica Flávio Josefo que o gesto de Herodes fora de medo: receava a influência de Batista sobre a massa e temia uma rebelião. Seja como for, sua prisão de azo à pregação de Jesus. Desde sua chegada à Galileia, proclamou Jesus o Evangelho, ou seja, a Boa Nova: "Cumpriu-se o tempo e o Reino de Deus está próximo. Arrependei-vos e crede no Evangelho". A mensagem expressa a esperança escatológica que, com poucas exceções, dominava a religiosidade judaica fazia mais de um século. Depois dos profetas, depois de João Batista, predizia Jesus a iminente transfiguração do mundo: temos aí a essência de sua pregação.